Desporto universitário no Brasil e EUA e as Atléticas
Há
tempos venho construindo um artigo acerca das Associações
Atléticas Acadêmicas, as AAAs, e o desporto universitário e no decorrer
da pesquisa percebi o quão escasso eram as referências bibliográficas
referentes ao tema. Por isso, peço a liberdade de redigir um artigo um
pouco mais longo que os demais, mas que servirá de base a muitos outros
que escreverei.
Dentro
da Universidade
tive a felicidade de me reaproximar das atividades físicas, pelas quais
pensei que iria me afastar após o futebol da adolescência, justamente
por meio
de uma AAA, a “VI de Junho” (UNESP Franca), que em 2014 completou seus 25 anos
de história, da qual tive o prazer assumir as funções de presidência no ano
passado.
Contudo, inserido nesse contexto, a mazela e o descaso com o
desporto universitário se tornam mais palpáveis e não menos desanimadores. Conforme
afirma Trevor Slack em Understanding
Sports Organization: the application of organization theory (2005), é
necessário conhecer detalhadamente uma organização e, a partir disso,
criar condições para se compreender e identificar os processos e
problemas na gestão
desportiva. Faz-se necessário o levantamento de questões e uma discussão
acerca
dessa manifestação desportiva que por muitas vezes é deixada de lado.
Pretendo, por meio de inúmeros artigos, mostrar um pouco de como
se deu o desenvolvimento e as faces do desporto universitário, buscando num
primeiro momento como se dá a relação infalível entre educação e desporto, no
Brasil, para em seguida fazer comparações com o sistema norte-americano do desporto
universitário. Não deixando de nos ater ao fato de que o desporto comporta diversos
modelos e seu enquadramento constitucional varia em função de uma escolha
política.
A formação de atletas dentro da universidade brasileira
talvez nunca seja tão eficiente pelo fato de o Brasil não conseguir definir um
modelo e ficar no meio do caminho entre o modelo norte-americano de formação de
atletas no sistema educacional e o europeu que atribui aos clubes essa
responsabilidade.
Desse
fato decorrem inúmeras falhas no sistema brasileiro e
por mais que se fale em investimentos, não há uma proposta de como
a verba deve ser fielmente investida e uma promoção específica das
diversas manifestações que albergam o desporto universitário, mesmo que
tenha havido um esforço gerador de resultados em 2005
do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) passando a financiar um campeonato
nacional com a formação de parcerias com a iniciativa privada.
Outra falha, dessa vez ideológica, é que no Brasil se torna
cada vez mais difícil se enxergar uma compatibilidade entre o esforço físico e
intelectual dentro da academia, em que persistem preconceitos pelas duas vias.
Acredita-se que apenas o talento de cada atleta o levará a excelência e não um
conjunto de esforços árduos de treinamentos sistematizados, apesar dessa
dicotomia não ser afastada nos EUA, mas se apresentar de outra forma. Para os
norte-americanos o talento esportivo é um passaporte ao mundo acadêmico. A
máxima “mens sana in corpore sano” é
deixada um pouco de lado.
O desporto universitário surge no Brasil já em 1916 com
disputas entre atletas paulistas e cariocas e somente em 1941, por meio do
Decreto-Lei 3.617/41, é criada a Confederação de Desportos Universitários que
viria a se tornar a Confederação Brasileira do Desporto Universitário. A CBDU
é o órgão máximo do sistema nacional do desporto universitário e é filiada à Federação
Internacional do Esporte Universitário, a FISU.
Porém, uma coisa é certa, até mesmo a legislação nacional
não consegue dar um correto enquadramento do desporto universitário em suas
três manifestações desportivas, ou pelo menos não as distingue e as promove em
seus pormenores: educacional, participação e rendimento. Enquanto o Brasil
sediará em Brasília a Universíade pela segunda vez, em 2019, com o custo
estimado de R$ 2,2 bilhões,
a estrutura não se vê moldada nas universidades e sobretudo dentro das
instituições públicas, não há ao menos espaços e infraestrutura
física para o desenvolvimento de atividades de iniciação ou
participação, ressalvados
os grandes centros ou os que de certa forma se sustentam pela iniciativa
privada, por ex-alunos ou outros incentivadores.
Algumas instituições de ensino têm procurado nos últimos
anos ampliar a profissionalização da gestão técnica e administrativa do
desporto universitário e o governo, de formar ainda silenciosa, apresenta outra
ferramenta, possibilitando que um projeto se enquadre na Lei de Incentivo ao Esporte, mas o desconhecimento frente a essa possibilidade ainda é latente.
É
importante termos em mente que o desporto universitário em
todas as suas fases teve o Estado como principal componente na estrutura
de
ação e intervenção verificada. A primeira fase foi a de 1916 mencionada
acima e a criação das primeiras federações universitárias se deu no
começo da década de
1930 com a fundação da atual Federação de Esportes Universitários do Rio
de
Janeiro, FEURJ, e da Federação Universitária Paulista de Esportes, a FUPE, mas
até então as referidas instituições estruturavam-se de uma forma relativamente
autônoma às estruturas estatais.
A FUPE mereceria um capítulo à parte, sempre contanto com
nomes de destaque como Adhemar Ferreira da Silva, Hortência, Marcelo Negrão e
Aurélio Miguel. Em 1990 a prefeitura cedeu o Centro Esportivo Paulo Roberto
Trivelli para a FUPE e, como contrapartida, esta deveria desenvolver ações
sociais na comunidade. As finais dos Jogos Universitários de São Paulo (JUSP)
em 2001 chegaram a ser transmitidas até mesmo pelos canais ESPN.
Nos anos seguintes com diversas denúncias de irregularidades
a Prefeitura Municipal despejou a entidade e a mesma sofreu uma série de quedas
sentidas até os dias de hoje. Em 2011, assumiu a presidência o ex-judoca
Aurélio Miguel e a partir de então, por meio de uma equipe qualificada, se viu
uma reascensão da entidade, com sua identidade resgatada, extinguindo inúmeros
processos e diminuindo o enorme passivo, além da descentralização de sua
atuação que atualmente atinge diretamente regiões como a Baixada Santista,
Ribeirão Preto, Campinas e Vale do Paraíba.
Com a regulamentação pelo Decreto 3.617/91, o modelo pensado
era o de privilégio aos sistemas escolares e universitários do desporto, bem
como competições de alto rendimento. A evolução fora tamanha que por meio da
Lei 6.251/75 as AAAs passam a representar as instituições de ensino e não mais
seus cursos isolados. Nesse período há um expressivo financiamento e
centralização das ações pelo Estado.
O apoio do governo militar ao desporto universitário era
compreensível, pois conservaria um ideal de conter a capacidade de mobilização
dos estudantes universitários. Com a promulgação da Constituição Federal de
1988 em seu art. 217, passa a ser interpretado como manifestação desportiva de
rendimento, contudo não havia sido montada uma estrutura que desse suporte a
esse novo cenário. A consolidação dessa fase se dá com a promulgação da Lei
Zico (Lei 8.672/93) e da Lei Pelé (Lei 9.615/98).
Essa nova fase, tendo em vista a mudança de perspectiva, a
falta de preparação e profissionalismo dos agentes envolvidos levou quase ao
desaparecimento do desporto universitário. A política neoliberal do governo
federal brasileiro atrelado a todo esse cenário culminou a uma situação de
descrença e desorganização. Munidos dessas informações podemos avançar à
situação atual dessa manifestação desportiva.
As Olimpíadas Universitárias, chamadas até 2005 de Jogos
Universitários Brasileiros (JUBS), contou com recursos provenientes da Lei
Agnelo/Piva (Lei 20.264/01) e com o aporte da iniciativa privada de uma gigante do ramo de
saúde e com cobertura das Organizações Globo, o que pareceu um indício de
mudanças com um modelo híbrido a partir da associação de receitas provenientes
da iniciativa privada e do Estado não se consolidou.
Nem todas as AAAs e demais Departamento de Esportes, ou
DE’s, ligados às Instituições de Ensino Superiores, IES, acabam se filiando ou
tem conhecimento da estrutura organizacional da manifestação desportiva
universitária no Brasil, pelos já citados descréditos e desorganização de anos,
fato recorrente principalmente nos interiores dos estados. Surgiram em todo o
país torneios organizados e entidades paralelas às filiadas à CBDU.
Dentre os maiores desafios do desporto universitário
nacional se encontra a gestão profissional. No Brasil encontramos duas
situações, a presença das AAAs e dos DEs. A segunda encontrada, sobretudo, em
IES privadas. Ou seja, algumas IES colocam o desporto em suas estratégias
políticas e algumas simplesmente o ignoram. O próprio Travor Slack, citado
acima, deixa claro que o profissionalismo é pré-requisito para o sucesso de uma
organização, profissionalismo que ultrapassa a oferta de serviços e entra no
terreno de treinamentos e padrões éticos de gestão.
Nesse cenário de vacância e desprezo surge a grande maioria
das AAAs a fim de preencher a demanda interna. As AAAs , entidades básicas de
organização do desporto universitário, são associações sem fins lucrativos,
formada por alunos e, por vezes, por ex-alunos e funcionários, independentes,
juridicamente estabelecidas e que fazem a gestão do desporto perante às IES ou
cursos aos quais representa.
Muitas das AAAs, tendo em vista a mudança de foco e
complexidades das ações se originaram de um desmembramento (provocado pela Lei 6.251/75)
de Coordenadorias Gerais de Esportes ou de Centros Acadêmicos, como é o caso da
“XI de Agosto” e da “Pereira Barreto”, vinculação essa antes obrigatória, tendo
em vista os ditames do Decreto-Lei 3.617/41.
Tal dispositivo legal também obrigava as Universidades e
demais IES a construírem a manterem praças esportivas, constituindo uma das
exigências mínimas para autorização e reconhecimento federal. Ademais toda IES
era obrigada a destinar uma subvenção à manutenção das AAAs e mesmo que a IES
fosse federal, uma subvenção direta da esfera pública seria devida.
Os membros das AAAs dividem o tempo da entidade com as
obrigações acadêmicas e muitas vezes com obrigações profissionais, assumindo a
responsabilidade sobre a participação em torneios, sendo, em grande parte das
vezes, seus esforços canalizados para os tradicionais Jogos Universitários,
além da realização de festas e outros eventos de cunho social e assistencial.
A maior parte das AAAs é gerida por diretores eleitos para
um período de um ano ou dois para cargos não remunerados. Os gestores das AAAs
chegam a dedicar até mais de 24h semanais à entidade e nos cargos estratégicos
possuem pouquíssima ou nenhuma experiência na gestão de esportes, com uma média
de idade baixíssima. Outro fator que merece destaque é o acesso acelerado
a cargos estratégicos, em que em pouco tempo o graduando assume funções
operacionais e com pouco tempo de experiência e maturidade atinge funções
estratégicas e táticas. Esse breve tempo de maturação claramente incorre em
erro constante e, por vezes, falta de posicionamento global.
Acrescido a isso, as IES procuram se distanciar de tais
entidades e não as dão qualquer suporte, seja ele financeiro ou mesmo
jurídico. Somado a esses fatores, está o
curto período dos cursos, com duração média de 5 anos, e a necessidade de
renovação constante de gestões. Gestões diferentes com missões, visões, valores
e estratégias distintas da precedente, o que acaba por romper uma continuidade
organizacional.
Assim, entre as maiores dificuldades de atuação dessas
entidades, além da falta de qualificação dos profissionais atuantes, estão as fontes
diminutas de receita. Nesse sentido, as associações buscam fontes de receitas
alternativas como a execução de festas, criando uma relação de dependência com
campeonatos que são financiados pelos recursos provenientes dos eventos sociais
paralelos e de certa forma estranhos às disputas desportivas.
O foco principal de muitas AAAs se torna os Jogos
Universitários. Tive o prazer de fazer parte da Comissão Organizadora dos JogosInterUnesp, por muitas vezes considerado dentro dos seus moldes de execução o maior
da América Latina, levando para a cidade sede em quatro dias um grande números
de estudantes, alcançando montantes de 15 e até 20 mil pessoas. Contudo tais
eventos apesar de aglomerarem milhares de pessoas, não conseguem concentrá-las
dentro dos ginásios, seja atletas ou até mesmo expectadores. Além do
InterUnesp, podemos citar o JUCA, TUSCA, Jurídicos, Economíadas, Engenharíadas
e muitos outros.
Não podemos confundir os trabalhos das AAAs brasileiras e
dos EUA. À frente das entidades norte-americanas estão executivos com uma
equipe especializada em negócios no desporto, a estrutura é muito mais complexa
e os orçamentos anuais ultrapassam as dezenas de milhões de dólares. Para se
ter uma idéia, Steve Patterson que coordena as atividades do Texas Athletics, a
AAA vinculada à University of Texas Longhorns, já havia se consolidado no meio do desporto na NBA muito antes
de assumir a direção da entidade acadêmica, como general manager e até mesmo presidente da franquia do Portland Trail Blazers. Mas esse é um assunto que será mais aprofundado num próximo momento.
Nos Departamentos de Esportes, entretanto, a situação se
apresenta um pouco melhor. Numa das poucas referências bibliográficas, um
estudo realizada pela vice-presidente da FUPE e da ABRADE, Deborah Palma, com os gestores desportivos universitários, em 2009, demonstrou que 66,7%
dos gestores profissionais dos DEs têm mais de 13 anos de experiência na área, formação e pós graduação adequadas, enquanto
os responsáveis pela gestão das AAAs tinham 74,4% dos seus representantes com 0
a 2 anos de experiência. Se por um lado esses não recebem quaisquer
remunerações, exceto 3% que recebem bolsas de estudos, 33,3% dos responsáveis
pelos DEs recebem de 15 a 20 salários mínimos, criando uma grande discrepância
entre o fomento do desporto universitário em cada IES.
Para que haja mudança ou pelo menos uma qualificação do
desporto universitário nacional seria necessária uma maior integração entre os
órgãos públicos de administração do desporto, como Secretarias e Ministérios do
Esporte e da Educação, visando uma ação com foco nos atletas. A formação
deveria ser fomentada desde o ensino fundamental, sendo responsável pela
detecção de potenciais talentos e criando condições para o seu desenvolvimento.
A disciplina de Educação Física dentro das atividades
curriculares é muito desvalorizada no Brasil criando uma inversão de valores,
onde ao invés das instituições educacionais serem responsáveis por levar os
jovens aos clubes, os clubes acabam por formar os cidadãos e os obrigam, como
requisito de permanência, a frequência regular nas escolas.
Quanto ao fato da promoção do desporto universitário
contribuir significativamente para o desenvolvimento de fatores como liderança,
disciplinas, confiança, espírito de equipe e controle emocional, não há
novidade. Mas precisa haver maior interesse das autoridades públicas e
incentivo a prática do desporto para que não fiquemos patinando e fazendo voos
solos por teorias.
O desporto moderno, com sua roupagem atual, uniformização de
regras, organização estrutural e categorias sempre esteve intimamente ligado às
universidades e não há de ser diferente nos dias atuais. Ele nasceu nas escolas
inglesas em que as práticas sistematizadas foram instauradas para o controle do
tempo ocioso das classes dominantes, como demonstra Norbert Elias em “A Busca
da excitação: memórias e sociedade”.
O mestre Manoel Tubino (“Dimensões sociais do esporte”.
1992) alerta para o fato de que devemos aumentar a percepção de esporte além do
rendimento, pois existe um desporto popular e educacional que deve ser
democrático e disponível para todos. A defesa de um movimento deve partir da
ação do Estado em criar através do desporto o bem estar social, uma referência
em valores.
Disso trazemos a obrigação da instituição estatal em criar
condições necessárias ao desenvolvimento de atividades físicas e desportivas,
conseguir que tais façam parte da formação cultural do indivíduo, conduzindo o
desporto como ferramenta no processo de democratização, uma mola propulsora
para uma sociedade mais justa e digna, criando oportunidades a uma maior
convivência humana.
Além disso, deveria haver uma separação mais clara entre as
diferentes manifestações possíveis do desporto universitário e a sua separação
em três formatos com promoção distinta: um desporto universitário de
rendimento, tal qual hoje é financiado pelo Estado, praticado por atletas
selecionados com objetivos de participar de competições oficiais; um desporto
de participação, voluntário, em que qualquer estudante possa atuar em
competições ou atividades recreativas, visando uma integração essencial a vida
social, saúde e educação; e o educacional, de iniciação, por meio de Educação
Física curricular ou oferecido pelas entidades desportivas acadêmicas e apoio
das IES.
No próximo artigo do blog trarei um pouco do desporto
universitário nos EUA e como ele torna o país na maior força desportiva do
planeta. Num modelo desportivo atrelado à educação, os atletas são muito mais
facilmente detectados e captados, pois há escolas em todo o território,
diferente das categorias de base dos clubes no Brasil que se concentram nos
grandes centros. Procurarei demonstrar o que faz o desporto universitário
americano uma máquina de geração de riqueza e as grandes diferenças entre as
AAAs, deixando como exemplo, o evento Final
Four de Basquetebol da National Collegiate Athletic Association (NCAA) que acontecerá em abril de
2015 e já tem praticamente todos os seus ingressos esgotados.
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