sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Desporto universitário no Brasil e EUA e as Atléticas

Há tempos venho construindo um artigo acerca das Associações Atléticas Acadêmicas, as AAAs, e o desporto universitário e no decorrer da pesquisa percebi o quão escasso eram as referências bibliográficas referentes ao tema. Por isso, peço a liberdade de redigir um artigo um pouco mais longo que os demais, mas que servirá de base a muitos outros que escreverei.

Dentro da Universidade tive a felicidade de me reaproximar das atividades físicas, pelas quais pensei que iria me afastar após o futebol da adolescência, justamente por meio de uma AAA, a “VI de Junho” (UNESP Franca), que em 2014 completou seus 25 anos de história, da qual tive o prazer assumir as funções de presidência no ano passado.

Contudo, inserido nesse contexto, a mazela e o descaso com o desporto universitário se tornam mais palpáveis e não menos desanimadores. Conforme afirma Trevor Slack em Understanding Sports Organization: the application of organization theory (2005), é necessário conhecer detalhadamente uma organização e, a partir disso, criar condições para se compreender e identificar os processos e problemas na gestão desportiva. Faz-se necessário o levantamento de questões e uma discussão acerca dessa manifestação desportiva que por muitas vezes é deixada de lado.

Pretendo, por meio de inúmeros artigos, mostrar um pouco de como se deu o desenvolvimento e as faces do desporto universitário, buscando num primeiro momento como se dá a relação infalível entre educação e desporto, no Brasil, para em seguida fazer comparações com o sistema norte-americano do desporto universitário. Não deixando de nos ater ao fato de que o desporto comporta diversos modelos e seu enquadramento constitucional varia em função de uma escolha política.

A formação de atletas dentro da universidade brasileira talvez nunca seja tão eficiente pelo fato de o Brasil não conseguir definir um modelo e ficar no meio do caminho entre o modelo norte-americano de formação de atletas no sistema educacional e o europeu que atribui aos clubes essa responsabilidade.

Desse fato decorrem inúmeras falhas no sistema brasileiro e por mais que se fale em investimentos, não há uma proposta de como a verba deve ser fielmente investida e uma promoção específica das diversas manifestações que albergam o desporto universitário, mesmo que tenha havido um esforço gerador de resultados em 2005 do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) passando a financiar um campeonato nacional com a formação de parcerias com a iniciativa privada.

Outra falha, dessa vez ideológica, é que no Brasil se torna cada vez mais difícil se enxergar uma compatibilidade entre o esforço físico e intelectual dentro da academia, em que persistem preconceitos pelas duas vias. Acredita-se que apenas o talento de cada atleta o levará a excelência e não um conjunto de esforços árduos de treinamentos sistematizados, apesar dessa dicotomia não ser afastada nos EUA, mas se apresentar de outra forma. Para os norte-americanos o talento esportivo é um passaporte ao mundo acadêmico. A máxima “mens sana in corpore sano” é deixada um pouco de lado.

Breve histórico

O desporto universitário surge no Brasil já em 1916 com disputas entre atletas paulistas e cariocas e somente em 1941, por meio do Decreto-Lei 3.617/41, é criada a Confederação de Desportos Universitários que viria a se tornar a Confederação Brasileira do Desporto Universitário. A CBDU é o órgão máximo do sistema nacional do desporto universitário e é filiada à Federação Internacional do Esporte Universitário, a FISU.

Porém, uma coisa é certa, até mesmo a legislação nacional não consegue dar um correto enquadramento do desporto universitário em suas três manifestações desportivas, ou pelo menos não as distingue e as promove em seus pormenores: educacional, participação e rendimento. Enquanto o Brasil sediará em Brasília a Universíade pela segunda vez, em 2019, com o custo estimado de R$ 2,2 bilhões, a estrutura não se vê moldada nas universidades e sobretudo dentro das instituições públicas, não há ao menos espaços e infraestrutura física para o desenvolvimento de atividades de iniciação ou participação, ressalvados os grandes centros ou os que de certa forma se sustentam pela iniciativa privada, por ex-alunos ou outros incentivadores.

Algumas instituições de ensino têm procurado nos últimos anos ampliar a profissionalização da gestão técnica e administrativa do desporto universitário e o governo, de formar ainda silenciosa, apresenta outra ferramenta, possibilitando que um projeto se enquadre na Lei de Incentivo ao Esporte, mas o desconhecimento frente a essa possibilidade ainda é latente.

É importante termos em mente que o desporto universitário em todas as suas fases teve o Estado como principal componente na estrutura de ação e intervenção verificada. A primeira fase foi a de 1916 mencionada acima e a criação das primeiras federações universitárias se deu no começo da década de 1930 com a fundação da atual Federação de Esportes Universitários do Rio de Janeiro, FEURJ, e da Federação Universitária Paulista de Esportes, a FUPE, mas até então as referidas instituições estruturavam-se de uma forma relativamente autônoma às estruturas estatais.

A FUPE mereceria um capítulo à parte, sempre contanto com nomes de destaque como Adhemar Ferreira da Silva, Hortência, Marcelo Negrão e Aurélio Miguel. Em 1990 a prefeitura cedeu o Centro Esportivo Paulo Roberto Trivelli para a FUPE e, como contrapartida, esta deveria desenvolver ações sociais na comunidade. As finais dos Jogos Universitários de São Paulo (JUSP) em 2001 chegaram a ser transmitidas até mesmo pelos canais ESPN.

Nos anos seguintes com diversas denúncias de irregularidades a Prefeitura Municipal despejou a entidade e a mesma sofreu uma série de quedas sentidas até os dias de hoje. Em 2011, assumiu a presidência o ex-judoca Aurélio Miguel e a partir de então, por meio de uma equipe qualificada, se viu uma reascensão da entidade, com sua identidade resgatada, extinguindo inúmeros processos e diminuindo o enorme passivo, além da descentralização de sua atuação que atualmente atinge diretamente regiões como a Baixada Santista, Ribeirão Preto, Campinas e Vale do Paraíba.

Com a regulamentação pelo Decreto 3.617/91, o modelo pensado era o de privilégio aos sistemas escolares e universitários do desporto, bem como competições de alto rendimento. A evolução fora tamanha que por meio da Lei 6.251/75 as AAAs passam a representar as instituições de ensino e não mais seus cursos isolados. Nesse período há um expressivo financiamento e centralização das ações pelo Estado.

O apoio do governo militar ao desporto universitário era compreensível, pois conservaria um ideal de conter a capacidade de mobilização dos estudantes universitários. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 em seu art. 217, passa a ser interpretado como manifestação desportiva de rendimento, contudo não havia sido montada uma estrutura que desse suporte a esse novo cenário. A consolidação dessa fase se dá com a promulgação da Lei Zico (Lei 8.672/93) e da Lei Pelé (Lei 9.615/98).

Essa nova fase, tendo em vista a mudança de perspectiva, a falta de preparação e profissionalismo dos agentes envolvidos levou quase ao desaparecimento do desporto universitário. A política neoliberal do governo federal brasileiro atrelado a todo esse cenário culminou a uma situação de descrença e desorganização. Munidos dessas informações podemos avançar à situação atual dessa manifestação desportiva.

As Olimpíadas Universitárias, chamadas até 2005 de Jogos Universitários Brasileiros (JUBS), contou com recursos provenientes da Lei Agnelo/Piva (Lei 20.264/01) e com o aporte da iniciativa privada de uma gigante do ramo de saúde e com cobertura das Organizações Globo, o que pareceu um indício de mudanças com um modelo híbrido a partir da associação de receitas provenientes da iniciativa privada e do Estado não se consolidou.

A Atual roupagem do desporto universitário

Nem todas as AAAs e demais Departamento de Esportes, ou DE’s, ligados às Instituições de Ensino Superiores, IES, acabam se filiando ou tem conhecimento da estrutura organizacional da manifestação desportiva universitária no Brasil, pelos já citados descréditos e desorganização de anos, fato recorrente principalmente nos interiores dos estados. Surgiram em todo o país torneios organizados e entidades paralelas às filiadas à CBDU.

Dentre os maiores desafios do desporto universitário nacional se encontra a gestão profissional. No Brasil encontramos duas situações, a presença das AAAs e dos DEs. A segunda encontrada, sobretudo, em IES privadas. Ou seja, algumas IES colocam o desporto em suas estratégias políticas e algumas simplesmente o ignoram. O próprio Travor Slack, citado acima, deixa claro que o profissionalismo é pré-requisito para o sucesso de uma organização, profissionalismo que ultrapassa a oferta de serviços e entra no terreno de treinamentos e padrões éticos de gestão.

Nesse cenário de vacância e desprezo surge a grande maioria das AAAs a fim de preencher a demanda interna. As AAAs , entidades básicas de organização do desporto universitário, são associações sem fins lucrativos, formada por alunos e, por vezes, por ex-alunos e funcionários, independentes, juridicamente estabelecidas e que fazem a gestão do desporto perante às IES ou cursos aos quais representa.

Muitas das AAAs, tendo em vista a mudança de foco e complexidades das ações se originaram de um desmembramento (provocado pela Lei 6.251/75) de Coordenadorias Gerais de Esportes ou de Centros Acadêmicos, como é o caso da “XI de Agosto” e da “Pereira Barreto”, vinculação essa antes obrigatória, tendo em vista os ditames do Decreto-Lei 3.617/41.

Tal dispositivo legal também obrigava as Universidades e demais IES a construírem a manterem praças esportivas, constituindo uma das exigências mínimas para autorização e reconhecimento federal. Ademais toda IES era obrigada a destinar uma subvenção à manutenção das AAAs e mesmo que a IES fosse federal, uma subvenção direta da esfera pública seria devida.

Os membros das AAAs dividem o tempo da entidade com as obrigações acadêmicas e muitas vezes com obrigações profissionais, assumindo a responsabilidade sobre a participação em torneios, sendo, em grande parte das vezes, seus esforços canalizados para os tradicionais Jogos Universitários, além da realização de festas e outros eventos de cunho social e assistencial.

A maior parte das AAAs é gerida por diretores eleitos para um período de um ano ou dois para cargos não remunerados. Os gestores das AAAs chegam a dedicar até mais de 24h semanais à entidade e nos cargos estratégicos possuem pouquíssima ou nenhuma experiência na gestão de esportes, com uma média de idade baixíssima. Outro fator que merece destaque é o acesso acelerado a cargos estratégicos, em que em pouco tempo o graduando assume funções operacionais e com pouco tempo de experiência e maturidade atinge funções estratégicas e táticas. Esse breve tempo de maturação claramente incorre em erro constante e, por vezes, falta de posicionamento global.

Acrescido a isso, as IES procuram se distanciar de tais entidades e não as dão qualquer suporte, seja ele financeiro ou mesmo jurídico.  Somado a esses fatores, está o curto período dos cursos, com duração média de 5 anos, e a necessidade de renovação constante de gestões. Gestões diferentes com missões, visões, valores e estratégias distintas da precedente, o que acaba por romper uma continuidade organizacional.

Assim, entre as maiores dificuldades de atuação dessas entidades, além da falta de qualificação dos profissionais atuantes, estão as fontes diminutas de receita. Nesse sentido, as associações buscam fontes de receitas alternativas como a execução de festas, criando uma relação de dependência com campeonatos que são financiados pelos recursos provenientes dos eventos sociais paralelos e de certa forma estranhos às disputas desportivas.

O foco principal de muitas AAAs se torna os Jogos Universitários. Tive o prazer de fazer parte da Comissão Organizadora dos JogosInterUnesp, por muitas vezes considerado dentro dos seus moldes de execução o maior da América Latina, levando para a cidade sede em quatro dias um grande números de estudantes, alcançando montantes de 15 e até 20 mil pessoas. Contudo tais eventos apesar de aglomerarem milhares de pessoas, não conseguem concentrá-las dentro dos ginásios, seja atletas ou até mesmo expectadores. Além do InterUnesp, podemos citar o JUCA, TUSCA, Jurídicos, Economíadas, Engenharíadas e muitos outros.

Não podemos confundir os trabalhos das AAAs brasileiras e dos EUA. À frente das entidades norte-americanas estão executivos com uma equipe especializada em negócios no desporto, a estrutura é muito mais complexa e os orçamentos anuais ultrapassam as dezenas de milhões de dólares. Para se ter uma idéia, Steve Patterson que coordena as atividades do Texas Athletics, a AAA vinculada à University of Texas Longhorns, já havia se consolidado no meio do desporto na NBA muito antes de assumir a direção da entidade acadêmica, como general manager e até mesmo presidente da franquia do Portland Trail Blazers. Mas esse é um assunto que será mais aprofundado num próximo momento.

Nos Departamentos de Esportes, entretanto, a situação se apresenta um pouco melhor. Numa das poucas referências bibliográficas, um estudo realizada pela vice-presidente da FUPE e da ABRADE, Deborah Palma, com os gestores desportivos universitários, em 2009, demonstrou que 66,7% dos gestores profissionais dos DEs têm mais de 13 anos de experiência na área,  formação e pós graduação adequadas, enquanto os responsáveis pela gestão das AAAs tinham 74,4% dos seus representantes com 0 a 2 anos de experiência. Se por um lado esses não recebem quaisquer remunerações, exceto 3% que recebem bolsas de estudos, 33,3% dos responsáveis pelos DEs recebem de 15 a 20 salários mínimos, criando uma grande discrepância entre o fomento do desporto universitário em cada IES.

Para que haja mudança ou pelo menos uma qualificação do desporto universitário nacional seria necessária uma maior integração entre os órgãos públicos de administração do desporto, como Secretarias e Ministérios do Esporte e da Educação, visando uma ação com foco nos atletas. A formação deveria ser fomentada desde o ensino fundamental, sendo responsável pela detecção de potenciais talentos e criando condições para o seu desenvolvimento.

A disciplina de Educação Física dentro das atividades curriculares é muito desvalorizada no Brasil criando uma inversão de valores, onde ao invés das instituições educacionais serem responsáveis por levar os jovens aos clubes, os clubes acabam por formar os cidadãos e os obrigam, como requisito de permanência, a frequência regular nas escolas.

Quanto ao fato da promoção do desporto universitário contribuir significativamente para o desenvolvimento de fatores como liderança, disciplinas, confiança, espírito de equipe e controle emocional, não há novidade. Mas precisa haver maior interesse das autoridades públicas e incentivo a prática do desporto para que não fiquemos patinando e fazendo voos solos por teorias.

O desporto moderno, com sua roupagem atual, uniformização de regras, organização estrutural e categorias sempre esteve intimamente ligado às universidades e não há de ser diferente nos dias atuais. Ele nasceu nas escolas inglesas em que as práticas sistematizadas foram instauradas para o controle do tempo ocioso das classes dominantes, como demonstra Norbert Elias em “A Busca da excitação: memórias e sociedade”.

O mestre Manoel Tubino (“Dimensões sociais do esporte”. 1992) alerta para o fato de que devemos aumentar a percepção de esporte além do rendimento, pois existe um desporto popular e educacional que deve ser democrático e disponível para todos. A defesa de um movimento deve partir da ação do Estado em criar através do desporto o bem estar social, uma referência em valores.

Disso trazemos a obrigação da instituição estatal em criar condições necessárias ao desenvolvimento de atividades físicas e desportivas, conseguir que tais façam parte da formação cultural do indivíduo, conduzindo o desporto como ferramenta no processo de democratização, uma mola propulsora para uma sociedade mais justa e digna, criando oportunidades a uma maior convivência humana.

Além disso, deveria haver uma separação mais clara entre as diferentes manifestações possíveis do desporto universitário e a sua separação em três formatos com promoção distinta: um desporto universitário de rendimento, tal qual hoje é financiado pelo Estado, praticado por atletas selecionados com objetivos de participar de competições oficiais; um desporto de participação, voluntário, em que qualquer estudante possa atuar em competições ou atividades recreativas, visando uma integração essencial a vida social, saúde e educação; e o educacional, de iniciação, por meio de Educação Física curricular ou oferecido pelas entidades desportivas acadêmicas e apoio das IES.

No próximo artigo do blog trarei um pouco do desporto universitário nos EUA e como ele torna o país na maior força desportiva do planeta. Num modelo desportivo atrelado à educação, os atletas são muito mais facilmente detectados e captados, pois há escolas em todo o território, diferente das categorias de base dos clubes no Brasil que se concentram nos grandes centros. Procurarei demonstrar o que faz o desporto universitário americano uma máquina de geração de riqueza e as grandes diferenças entre as AAAs, deixando como exemplo, o evento Final Four de Basquetebol da National Collegiate Athletic Association (NCAA) que acontecerá em abril de 2015 e já tem praticamente todos os seus ingressos esgotados.

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