A mídia e o esporte em tempos neoliberais
Para aqueles que são fãs de esporte, as últimas semanas tem sido pródigas em notícias que estimulam a reflexão. Uma reflexão sobre as estruturas do esporte e sua relação com o contexto econômico que emerge nos anos 1980 e não apenas sobre a conjuntura, seja ela acerca da falência financeira dos clubes ou da qualidade das pelejas de nosso combalido campeonato nacional.
Uma análise da maneira pela qual o esporte é tratado pela política editorial da mídia tupiniquim pode, na opinião deste que vos escreve, ilustrar com maestria os fundamentos desta relação entre esporte, ideologia e economia. Como fator catalisador desta reflexão, uma notícia merece destaque: a queda sistemática de audiência do futebol brasileiro na última década.
Muito mais do que reflexo de uma ressaca da Copa do Mundo e da competição com outras plataformas de conteúdo disponibilizadas ao grande público a partir da década passada, a crise de audiência deriva de uma política midiática inadequada de construção de um ambiente em favor do esporte. Explica-se: a divulgação e a sustentação midiática das competições esportivas em esfera nacional fogem cada vez mais do conceito amplo do esporte (como filosofia de vida e socialização) e se sustenta no tripé (a) efeito celebridade, (b) pachequismo e (c) ‘camarotização do espetáculo’.
Neste cenário o esporte é relegado a um plano hierarquicamente inferior, em detrimento da comercialização de um produto cujos principais atrativos estão muito mais próximos do entretenimento em massa do que dos valores do esportivos em si. Traduzindo em outros termos, o amante do esporte é cada vez mais visto como um romântico, antiquado e pouco rentável economicamente. O cerne das transmissões passa a ser o culto à celebridade – não se assiste mais aos jogos do Barcelona, um clube com uma linda história progressista e de resistência à opressão Franquista, mas sim Messi e cia.
Ao mesmo tempo, em cenários de crise esportiva, como quando na ausência do enésimo ‘futuro melhor do mundo’ Neymar na partida contra a Colômbia, as transmissões transferem seu esteio para o pachequismo. Em meio a incitações bélicas, a conspirações sobre ‘eles’ perseguindo nosso craque e destruindo ‘nosso sonho’ de vencer uma Copa em casa, é aclamado um novo herói nacional, o pseudo capitão kamikaze David Luiz. Por fim, quando nem o efeito celebridade nem o pachequismo sustentam o distinto público, emerge a figura da camarotização do espetáculo como bastião da resistência. Neste cenário, as novas e assépticas arenas padrão Fifa, passam a ser o principal atrativo, onde para muitos o atrativo mais interessante é a selfie e não o esporte. Esse fenômeno se acentuou desde a crise dos anos 80. Na esfera esportiva nacional a partir da tragédia Sarriá – e do questionamento sobre da filosofia de jogo coletivo então utilizada – e da emergência no final desta década do ícone Ayrton Senna ‘do Brasil’.
No entanto, mais do que determinantes na esfera esportiva, as raízes mais profundas deste tripé parecem estar relacionadas com a reação econômica liberal observada neste mesmo período, a qual cristaliza o individualismo como ethos econômico e de vida. Em um contexto de exaltação da eficiência do livre mercado, guiado por uma mão invisível que remunera os agentes e os fatores de acordo com sua suposta contribuição marginal ao sistema, é de se esperar a sobreposição do indivíduo sobre coletivo. É justamente a partir destas bases que se compreende o destaque atribuído às características individuais ditas sobrenaturais dos ídolos que replicam no imaginário coletivo a metáfora do self made man americano do último quartel do século XIX.
Ainda neste contexto de exaltação do individualismo, a camarotização surge como uma estratégia econômica ardilosa de captação do excedente do consumidor. Ou seja, em um cenário de ascensão econômica das classes populares, a camarotização representa nada mais do que a sinalização ao coletivo do valor (ou seria do preço?) que o agente econômico atribui a si próprio perante os demais.
Por fim, o pachequismo com seu mantra “sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor” pode ser entendido de alguma maneira como um eco na esfera esportiva – ainda que difuso – das correntes de inclinação liberal na política externa, as quais relegam a interação entre países à esfera de exploração mercantilista, em detrimento da construção de agendas de desenvolvimento comuns. Eco este que se reflete nas análises geopolíticas que se auto denominam como não ideológicas e que condenam quaisquer iniciativas de se construir uma inserção externa brasileira mais autônoma a partir de uma aliança política com os demais países dos BRICS e exaltam a interação com viés mercantilista e exclusivamente utilitarista que caracteriza iniciativas como o NAFTA e a Aliança do Pacífico.
Neste cenário em que a política editorial do esporte parece estar condicionada pela ideologia liberal sobre a qual a mídia tradicional constrói suas análises econômicas e políticas, será que o alto comando midiático nunca se questionou que é possível alguém ser um apaixonado pelo futebol e não apenas pelo Corinthians, pelo Flamengo ou por outro clube? Ou que é possível alguém ser um amante do ciclismo, do automobilismo, do atletismo mesmo sem que haja sequer um brasileiro com uma história pessoal dramática competindo contra ‘os outros’? Ou será que essas são apenas reflexões anacrônicas em tempos liberais de um romântico alistado no incrível exército de Branca Leone?
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