sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A África e o futebol como fator de integração nacional

Novos paradigmas e crenças a respeito da humanidade surgem no período atual e alguns debates acerca de identidade e integração nacional naturalmente perpassam pelo desporto. Nas idéias desenvolvidas por Stuart Hall (“A Identidade cultural na pós-modernidade”, 2005), passamos por tempos de “crise de identidade”, onde as velhas identidades declinam.

O mundo globalizado subordina o sujeito pós-moderno a constantes transformações sociais e culturais, pois o mundo em que vive o homem agora é dinâmico e sofre constantes mudanças, conforme assevera Zigmunt Bauman (“Globalização: as consequências humanas”, 1998), e o próprio processo de identificação, em que projetamos nossas identidades culturais torna-se provisório.

As culturas nacionais servem de fonte para criação de uma identidade nacional, que não é genética ou hereditária, mas construída e alocada no interior de uma representação. Hall as classifica como discursos que dão sentidos e valores a símbolos em comum, os quais acabam por influenciar as ações e concepções absorvidas por um sujeito.

Torna-se cada vez mais difícil a manutenção de uma homogeneidade nacional no mundo pós-moderno. Além disso, desigualdades sociais, conflitos étnicos e outros fatores provenientes de processos de “infiltração cultural” influenciam o surgimento de identidades diferenciadas, como é o caso do continente africano. Contudo se vê nesse processo um interesse cada vez maior pela localidade.

Apesar da existência de uma dissolução de fronteiras, não significa que há uma extinção completa de territorialidade, localidade e nacionalidade. Nesse sentido, Boaventura de S. Santos (“Os Processos de globalização”, 2002) explica bem o sistema-mundo e as tramas dos localismos territorializados, em que os povos, ao fim de uma opressão cultural, reivindicam finalmente, com certo êxito, o direito à autodeterminação dentro de seus territórios.

Cabe aqui diferenciar o localismo globalizado em que o fenômeno local é globalizado com sucesso, como o caso das vuvuzelas nos estádios em 2010 e as apresentações musicais brasileiras em todo país, mesmo que em pequena escala e, os mais sentidos, globalismos localizado. Tais consistem num impacto específico nas condições locais produzidos pela práticas e imperativos transnacionais decorrentes dos localismos globalizados, como a Lei Geral da Copa por excelência. Tudo isto requer um diálogo intercultural e uma hermenêutica diatópica.

Já identidade consiste, portanto, segundo Manuel Castells, “fonte de significado e experiência de um povo”, que visa a consolidação da sociedade civil e, sua construção, depende de como a sociedade organiza a matéria prima de uma cultura obtida, processada e reorganizada. (“A Era da informação: economia, sociedade e cultura”, 2002).

A África sempre teve sérias dificuldades na construção de culturas nacionalistas, desconhecendo a existência de Estados nacionais, segundo a concepção clássica. Decorrência da Conferência de Berlim (1884) e a consequente partilha arbitrária de seu território. Pode-se dizer que os ideais nacionalistas têm seu ponto fraco na construção das identidades nacionais africanas. Diversas ações atualmente demonstram uma preocupação com a valorização da cultura africana, de seus povos e Estados e grande exemplo disso foi a Copa do Mundo de Futebol, em 2010, ocorrida na África do Sul.

Para entender o desporto como fator de integração nacional, temos que ter em mente o conceito de tradição inventada de Hobsbawn, que basicamente consiste num conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas, de natureza ritual ou simbólica, visando vincular certos valores e normas de comportamento através da repetição. (“A invenção das tradições”, 1997). O desporto pode reunir e significar o valor cultural da sociedade organizada e é possível que a conquista do status desportivo legitime essa instituição e dê sentido à integração de uma identidade pautada na cultura desportiva.

O desporto é, portanto, fator de integração nacional, pois surge capaz de gerar força suficiente para que uma comunidade de resistência se torne, no mínimo, um projeto de nova identidade, sendo completamente possível, contudo, sua total legitimação e transformação da estrutura da sociedade. Para Castells, neste caso, a construção da identidade consiste em projeto de vida diferente, talvez com base em uma identidade oprimida, se expandindo no processo de transformação social.

O desempenho de uma seleção nacional, principalmente no esporte mais popular do mundo, o Futebol, induz naturalmente nos espectadores uma imagem acerca deste povo. O Futebol se torna fonte de inspiração para os africanos e instrumento para que alguns países se insiram no contexto político do sistema internacional.

As conquistas se revelam nos apelidos de suas próprias seleções: Gana que conquista a independência em 1960, é chamada de “Black Stars”, simbolizando a sublevação negra; “The Elephants” representa uma das maiores forças econômicas do continente, a Costa do Marfim; “Green Eagles” representa a seleção nigeriana, o verde da sua nação aliado ao grande predador; os “Pharaos” representam os Reis do Egito e a avançada civilização que eles representavam.

Nos estádios, as lutas também demonstram a relação entre o futebol e os sentimentos nacionalistas. Na Nigéria, por exemplo, o Estádio de Abuya foi construído em um local de comemorações da independência em Outubro de 1960. A cidade de Acra, assim como em Lusaka, tem como principal estádio, o “Independência”. Benim e Senegal mantém os “Estádios da Amizade”. Em Ibadan ainda notamos o “da Liberdade”; em Duala o da “Reunificação” e o da “Revolução”, em Brazzaville.

Diversos torneios mundiais de base têm sido conquistados pelos africanos nos últimos anos, assim como dois Jogos Olímpicos, os quais nem o Brasil possui. Na década de 1990, o Camarões, de Roger Milla, alcança as quartas-de-final do mundial e representa a ascensão do futebol africano, aliado à política eleitoreira de João Havelange que provoca o desenvolvimento da representatividade do esporte local.

Outro grande ídolo do continente foi o liberiano George Weah, eleito melhor do mundo em 1995 pela FIFA. Apesar de ser exceção de imigração norte-americana, o futebol se tornou fator de integração nacional através de um ídolo e não uma seleção, o qual concorreu a eleição presidencial em 2005.

O Futebol está longe de ser o único fator de integração, mas se revela de suma importância, pois o continente africano muito se baseia nele para uma nova construção de identidade e possibilidade de unir de forma coesa uma sociedade que não reunia fatores de integração suficiente para manter uma ordem nacional.

O desporto se torna uma esperança para um povo marcado pela injustiça. Em países de tantos conflitos e contrastes, como é o caso da África do Sul, sede da Copa em 2010, que tem como principal esporte o Rúgbi e não o Futebol, o desporto se torna necessário para o encontro de um sentimento de identidade nacional e cultural para transpor barreiras impostas pela sua história trágica. Um elo de identificação entre os indivíduos dessa sociedade que deixou de ser obscura e por muito tempo acreditaram ser intocável, trazendo consigo um ideal de igualdade e desenvolvimento.

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