A África e o futebol como fator de integração nacional
Novos paradigmas e crenças a respeito da humanidade surgem
no período atual e alguns debates acerca de identidade e integração nacional
naturalmente perpassam pelo desporto. Nas idéias desenvolvidas por Stuart Hall
(“A Identidade cultural na pós-modernidade”, 2005), passamos por tempos de
“crise de identidade”, onde as velhas identidades declinam.
O mundo globalizado subordina o sujeito pós-moderno a
constantes transformações sociais e culturais, pois o mundo em que vive o homem
agora é dinâmico e sofre constantes mudanças, conforme assevera Zigmunt Bauman
(“Globalização: as consequências humanas”, 1998), e o próprio processo de
identificação, em que projetamos nossas identidades culturais torna-se
provisório.
As culturas nacionais servem de fonte para criação de uma
identidade nacional, que não é genética ou hereditária, mas construída e
alocada no interior de uma representação. Hall as classifica como discursos que
dão sentidos e valores a símbolos em comum, os quais acabam por influenciar as
ações e concepções absorvidas por um sujeito.
Torna-se cada vez mais difícil a manutenção de uma
homogeneidade nacional no mundo pós-moderno. Além disso, desigualdades sociais,
conflitos étnicos e outros fatores provenientes de processos de “infiltração
cultural” influenciam o surgimento de identidades diferenciadas, como é o caso
do continente africano. Contudo se vê nesse processo um interesse cada vez
maior pela localidade.
Apesar da existência de uma dissolução de fronteiras, não
significa que há uma extinção completa de territorialidade, localidade e
nacionalidade. Nesse sentido, Boaventura de S. Santos (“Os Processos de
globalização”, 2002) explica bem o sistema-mundo e as tramas dos localismos territorializados,
em que os povos, ao fim de uma opressão cultural, reivindicam finalmente, com
certo êxito, o direito à autodeterminação dentro de seus territórios.
Cabe aqui diferenciar o localismo globalizado em que o
fenômeno local é globalizado com sucesso, como o caso das vuvuzelas nos
estádios em 2010 e as apresentações musicais brasileiras em todo país, mesmo
que em pequena escala e, os mais sentidos, globalismos localizado. Tais
consistem num impacto específico nas condições locais produzidos pela práticas
e imperativos transnacionais decorrentes dos localismos globalizados, como a
Lei Geral da Copa por excelência. Tudo isto requer um diálogo intercultural e
uma hermenêutica diatópica.
Já identidade consiste, portanto, segundo Manuel Castells,
“fonte de significado e experiência de um povo”, que visa a consolidação da
sociedade civil e, sua construção, depende de como a sociedade organiza a
matéria prima de uma cultura obtida, processada e reorganizada. (“A Era da
informação: economia, sociedade e cultura”, 2002).
A África sempre teve sérias dificuldades na construção de
culturas nacionalistas, desconhecendo a existência de Estados nacionais,
segundo a concepção clássica. Decorrência da Conferência de Berlim (1884) e a
consequente partilha arbitrária de seu território. Pode-se dizer que os ideais
nacionalistas têm seu ponto fraco na construção das identidades nacionais
africanas. Diversas ações atualmente demonstram uma preocupação com a valorização
da cultura africana, de seus povos e Estados e grande exemplo disso foi a Copa
do Mundo de Futebol, em 2010, ocorrida na África do Sul.
Para entender o desporto como fator de integração nacional,
temos que ter em mente o conceito de tradição inventada de Hobsbawn, que
basicamente consiste num conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras
tácitas ou abertamente aceitas, de natureza ritual ou simbólica, visando
vincular certos valores e normas de comportamento através da repetição. (“A
invenção das tradições”, 1997). O desporto pode reunir e significar o valor
cultural da sociedade organizada e é possível que a conquista do status
desportivo legitime essa instituição e dê sentido à integração de uma
identidade pautada na cultura desportiva.
O desporto é, portanto, fator de integração nacional, pois
surge capaz de gerar força suficiente para que uma comunidade de resistência se
torne, no mínimo, um projeto de nova identidade, sendo completamente possível,
contudo, sua total legitimação e transformação da estrutura da sociedade. Para
Castells, neste caso, a construção da identidade consiste em projeto de vida
diferente, talvez com base em uma identidade oprimida, se expandindo no
processo de transformação social.
O desempenho de uma seleção nacional, principalmente no
esporte mais popular do mundo, o Futebol, induz naturalmente nos espectadores
uma imagem acerca deste povo. O Futebol se torna fonte de inspiração para os
africanos e instrumento para que alguns países se insiram no contexto político
do sistema internacional.
As conquistas se revelam nos apelidos de suas próprias seleções:
Gana que conquista a independência em 1960, é chamada de “Black Stars”,
simbolizando a sublevação negra; “The Elephants” representa uma das maiores
forças econômicas do continente, a Costa do Marfim; “Green Eagles” representa a
seleção nigeriana, o verde da sua nação aliado ao grande predador; os “Pharaos”
representam os Reis do Egito e a avançada civilização que eles representavam.
Nos estádios, as lutas também demonstram a relação entre o
futebol e os sentimentos nacionalistas. Na Nigéria, por exemplo, o Estádio de
Abuya foi construído em um local de comemorações da independência em Outubro de
1960. A cidade de Acra, assim como em Lusaka, tem como principal estádio, o
“Independência”. Benim e Senegal mantém os “Estádios da Amizade”. Em Ibadan
ainda notamos o “da Liberdade”; em Duala o da “Reunificação” e o da
“Revolução”, em Brazzaville.
Diversos torneios mundiais de base têm sido conquistados
pelos africanos nos últimos anos, assim como dois Jogos Olímpicos, os quais nem
o Brasil possui. Na década de 1990, o Camarões, de Roger Milla, alcança as
quartas-de-final do mundial e representa a ascensão do futebol africano, aliado
à política eleitoreira de João Havelange que provoca o desenvolvimento da representatividade
do esporte local.
Outro grande ídolo do continente foi o liberiano George
Weah, eleito melhor do mundo em 1995 pela FIFA. Apesar de ser exceção de
imigração norte-americana, o futebol se tornou fator de integração nacional
através de um ídolo e não uma seleção, o qual concorreu a eleição presidencial
em 2005.
O Futebol está longe de ser o único fator de integração, mas
se revela de suma importância, pois o continente africano muito se baseia nele
para uma nova construção de identidade e possibilidade de unir de forma coesa
uma sociedade que não reunia fatores de integração suficiente para manter uma
ordem nacional.
O desporto se torna uma esperança para um povo marcado pela
injustiça. Em países de tantos conflitos e contrastes, como é o caso da África
do Sul, sede da Copa em 2010, que tem como principal esporte o Rúgbi e não o
Futebol, o desporto se torna necessário para o encontro de um sentimento de
identidade nacional e cultural para transpor barreiras impostas pela sua
história trágica. Um elo de identificação entre os indivíduos dessa sociedade
que deixou de ser obscura e por muito tempo acreditaram ser intocável, trazendo
consigo um ideal de igualdade e desenvolvimento.
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